domingo, novembro 05, 2006

Um pouco de nostalgia e uma crítica ao corrompido mundo atual dos quadrinhos

Fuckers, difícil precisar quando o Cabelo começou a ler quadrinhos. Provavelmente, foi em 1985, com um Homem-Aranha nº 25, onde o Aranha enfrenta o Tigre Branco, uma bela história por sinal, desenhada pelo Romita Jr, senão me engano. Não sabe quem é? Foda-se. Claro que, na condição de uma criança genuinamente cabeluda de quatro anos, o máximo que fazia era rabiscar tudo. Na realidade eu lia tudo que aparecia, desde insossos Tarzan a Tio Patinhas, e passava a canetinha em tudo.
Com o tempo, foi surgindo um forte apreço pela arte seqüencial, e me vi dividindo meu tempo com os filmes e jogos de futebol com essa arte. Como debutei lendo quadrinhos Marvel e DC nos anos 80, sob a tutela da Editora Abril, é natural que eu tenha uma especial admiração pelos titulos publicados nessa época. Uma admiração nostálgica, infantil às vezes e repleta de boas lembranças e boas histórias e bons artistas. Até hoje me emociono com algumas revistas antigas. Vamos agora viajar com o Cabelo ao passado:

Uma revista muitíssimo especial sob minha lógica nublada pelas recordações, publicada pela Abril de 1979 até 1988, quando deu lugar ao titulo próprio dos X-Men, era Heróis da TV. Nessa revista tínhamos os célebres Vingadores, em uma formação clássica, com Capitão América, Homem de Ferro, Thor, Visão, Feiticeira Escarlate, Gavião Arqueiro, Vespa, Jaqueta Amarela (ex-Homem Formiga). Tínhamos também aventuras solo do Thor (ora sob a batuta de Walt Simonson, ora com John Buscema) e o Homem de Ferro, na célebre fase alcoólatra. Se encontrarem em algum sebo, qualquer HTV, comprem, pois vale a pena, veados.

Outra HQ sensacional era a do Aranha, numa fase artisticamente frutífera se comparada ao que tem sido feito nos 2000. Antes, o Aranha foi publicado no Brasil pela Ebal e por uma outra que não me lembro o nome, mas foi na Abril que ele deslanchou e foi editado e publicado com dignidade, respeitando a seqüência lógica e cronológica do original americano, a partir de 1983. A Panini seguiu a mesma estrutura, até melhorou.
Outro titulo ótimo era Superaventuras Marvel, com Demolidor e X-Men, cujas equipes de criação eram Frank Miller e a dupla Claremont-Byrne, respectivamente. A conhecida SAM tinha ótimas vendagens e ótimas histórias, todos os meses.

O Incrível Hulk eu achava interessante e também lia, mas nunca fui lá um grande fã do Gigante Esmeralda. Exceto quando ele lançava pérolas como: "Hulk esmaga homenzinhos" e "Homenzinho estúpido matou amigo Hulk". Vocês podem notar que o Hulk, assim como o Pelé e eu, é adepto da terceira pessoa do singular.

O Capitão América também tinha título próprio pela Abril; eram boas histórias, com bons desenhos, porém nada de especial. Eu gostava, contudo. Na época eu não tinha lá muito senso crítico para diferenciar o ufanismo utópico do Capitão, eu o via como um herói qualquer. Quando releio o CA dessa época, dos fins dos anos 80 e começo dos 90, se via que a influencia pró-America não era tão forte, mas existia (afinal, era época de Reagan e do Bush-pai). Eu não entendia merda nenhuma disso. Hoje, as histórias do Capitão são repletas de caçadas a terroristas. O sucker desavisado pode até não saber, mas em uma dessas caçadas no Oriente Médio, Steve Rogers realmente matou Bin Laden e decretou a paz e a ordem no mundo novamente. Ridículo. Por isso não leio nada do Capitão desde 1998, ficou tudo muito cretino.

A Espada Selvagem de Conan, em preto e branco, escrita por Roy Thomas e desenhada por John Buscema, era fantástica, puta revista boa. Lá eu vi Conan ser rei, ser pirata, depor monarcas tiranos, ser um audaz ladrão e engalfinhar milhares. Histórias de capa e espada muito especiais e feitas com muita inspiração.

A cada três meses, surgia nas bancas uma edição especial da Abril, a saudosa Grandes Heróis Marvel, com arcos de histórias selecionadas, todos os meses com convidados especiais.

Quando HTV foi descontinuada em 1988 (creio eu), a revista mensal dos X-Men surgiu, com histórias realmente boas e humanas, focadas em cunho social e temas anti-racistas em meio a batalhas campais. Literatura pura, caros Fuckers. Razão com emoção. Tudo o que um homem sério poderia desejar no alto de seus 7 a 100 anos de idade.

Impossível descrever, de uma tacada só, minha perspectiva sobre as histórias célebres e marcantes de cada uma das HQ´s supracitadas, mesmo porque, elas representam apenas parte da minha admiração por quadrinhos. Pouco a pouco, vou dissecar e falar de tudo oportunamente. Prometo isso a vocês, fuckers.
Porém, e tudo na vida tem um porém, o jocoso sucker dirá, enquanto experimenta as calcinhas de sua esposa: "Mas Cabelo, do que você está falando? Eu conheço os X-Men, o Homem-Aranha e o Hulk pelos filmes e desenhos animados, ninguém lê esses gibis!". O problema é que esse pederasta tem razão no que concerne à divulgação das HQ´s. Não bastasse o leviano e pejorativo termo "gibi", o grande público tupiniquim, mais preocupado com suas fantasias de carnaval, ignora o potencial real dos quadrinhos. Aqui, são chamados de "coisa de criança".
Mais de uma vez, vi mães bigodudas negarem aos filhos a compra de um exemplar do Homem Aranha ou X-Men. Quando muito, compram o Donald ou a Mônica. Nada contra Disney e Mauricio, eu gosto de ler também suas publicações, especialmente ao dar um rápido cagalhão.
Enfim, quando o material chega às casas das pessoas por mídias mais difundidas, todo mundo gosta. Ora, “mas por quê?”, me pergunta o homossexual sucker. Porque o material é bom, caralho. E saibam que eu geralmente detesto adaptações cinematográficas ou desenhos animados baseados em HQ´s. 80% do que sai é merda, não corresponde à plenitude do potencial dos personagens (PS: acho imbecil escrever AS personagens ao invés de OS personagens. Logo, vou escrever como eu quero). Mas nesse resquício de qualidade, nesse verdadeiro lampejo, a turma dos quadrinhos cativa, comove e vende. E como vende. Quem não viu ou X-Men ou Homem-Aranha no cinema que dê shut down agora e vá à merda. Todo mundo viu!
Aí, é que a coisa piora, caros Fuckers... sigam meu raciocinio com o exemplo categórico dos X-Men, criados por Stan Lee e Jack Kirby em 1963. Os mutantes têm uma carreira de mais altos que baixos nas HQ´s por quase 30 anos, angariando uma legião de fãs e seguidores. Aparece então, um desenho animado de qualidade acima da média, voltado para o publico adolescente, em meados dos anos 90. O desenho faz um puta sucesso, porque o material é bom e foi feito com esmero na sua versão televisiva. Anos mais tarde, sai o esperado longa, em 1999 ou 2000, não lembro exatamente. Puta filme também, embora contendo algumas questionáveis alterações. Os uniformes por exemplo. O filme gerou tantos dividendos que então presenciamos uma onda frenética de novos lançamentos de adaptações de clássicos Marvel: Homem Aranha, Hulk, Demolidor, Quarteto Fantástico, Elektra e, óbvio, as seqüências. Muitos desses foram grandes merdas, para ser bem sincero, mas outros cumpriram a seu propósito e foram muito bem, em qualidade e bilheterias.
Fuckers, pois surge então, um fenômeno: um ciclo vicioso criativo, pois na esteira do sucesso dos filmes, os publishers da Marvel (e da DC também, pois a coisa respingou por lá, vide Batman Begins e esse novo filme do Superman) quase obrigaram roteiristas e desenhistas a utilizarem a fórmula e o design da sétima arte nos gibis. Uma bela sacada mercadológica, sem dúvida, pois imaginem um garoto de 12 anos saindo do cinema ansioso por continuar vivendo o mundo X comprando nas bancas e livrarias um material dos X-Men sem ter nada a ver com os filmes. Seria péssimo, não haveria continuidade. E sem continuidade, o produto não vende por longos períodos de tempo e não ganha mais adeptos. Acho que até o mais inepto dos suckers já entendeu. E faz todo o sentido, e eu não culpo a Marvel nem a DC por isso, pois sou administrador e sei que o mercado consumidor é agressivo e segue ciclos, segue modinhas. Se 20% desses moleques de 12 anos seguir lendo X-Men por um ano ou dois, já representaria uma bela mudança na curva de lucros. Curva essa importante para qualquer editora de comic books (para qualquer empresa, na verdade), ainda mais para a Marvel, que entrou em concordata nos EUA no fim da ultima decada e que, com táticas como essa, se recuperou-- e muito bem.

Mas o tema X-Men me causa muito desgosto, pois é um grupo moribundo, sem energia criativa e que necessita de mudanças radicais. Mudanças essas que jamais ocorrerão, pois seria nadar contra a maré. No meio tempo, a Marvel licencia os mutantes para horripilantes versões mangás e segue na rabeira dos filmes. Tudo mais do mesmo, e faz tempo. E pensar que tudo começou com aquele bom desenho animado há 12 anos...

Enfim Fuckers, recomendo saudáveis leituras de quadrinhos adultos de qualidade, de autores como Miller, Ennis, Moore, Eisner, Moebius. Ou mesmo de linhagem adulto-juvenil, como a série Marvel Millenium e Max. Batman é sempre bom... Podem até ler os faroestes do Tex, que são ótimos. Ou quem sabe, os quadrinhos eróticos de Milo Manara. Ou mesmo Calvin & Hobbes, uma das coisas mais inteligentes já feitas nesse universo. O galês Asterix também, por que não? Angeli, Fernando Gonzales (Niquel Nausea), Glauco, Maitena, Laerte, os caras estão aí, é só procurar. Mas leiam.
E decidam vocês sobre o que gostam ou não, de repente ler Zé Carioca, Garfiled, Cebolinha ou Urtigão podem melhorar seu dia, sua semana. Podem te dar alento após uma discussão de relação com a namorada.

Afinal, são dessas coisas que a felicidade é feita, caralho.

8 Comments:

At 4:42 PM, Anonymous Anônimo said...

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At 11:11 PM, Anonymous Anônimo said...

Cabelo,
continuo batendo na mesma tecla. Você nunca menciona Gaiman!
Meu Deus!

 
At 11:12 PM, Anonymous Anônimo said...

Maitena é engraçadinha, mas agrada mais mulheres do que homens. Seguindo o seu raciocínio deve agradar aos Suckers

 
At 10:47 AM, Anonymous Anônimo said...

eu lia boa parte disso que você citou, mas infelizmente deixei várias coisas de lado, tais como o próprio Watchmen, Sandman, etc.
sou bem curioso quanto a esses títulos até hoje.
eu peguei mais Marvel e DC (essa última uma puta babaquice no geral), e fiquei de olho na Dark Horse, Image, essas porras, quando estavam começando.
uma coisa que eu achava e ainda acho espetacular são as mini-séries do Batman, aquelas em formato americano. Messias é excelente.
Asilo Arkham, Piada Mortal, Cavaleiro das Trevas, edições especiais, Graphic Novels, essa caralha toda.

mas as adaptações cinematográficas sempre ficam um lixo mesmo. todas as que eu vi são, com destaque nesse sentido Spawn e esse novo do Justiceiro, clichê horroroso.
gostei só do Batman do Christopher Nolan e do X-Men.
abraços.

 
At 12:44 AM, Blogger Cabelo said...

Fucker Bruno:
Por opção, conheço pouco de Gaiman, que parece mais ter saído da versão bozarra do The Cure. Ele é um engodo e ainda vai ser desmacarado. Surrealismo demais é para suckers. Um homem sério encara a realidade.

 
At 12:47 AM, Blogger Cabelo said...

Fucker Bruno:
Sim, Maitena explora o mundo feminino, mas um homem sério e preocupado com sua vida sexual se dá ao minimo trabalho de tentar entender um pouco as mulheres e seus dilemas. Se o veiculo de tal aprendizado se der por HQ´s, melhor. Afinal, punheta cansa.

 
At 12:53 AM, Blogger Cabelo said...

Fucker Goose:
Messias é realmente um puta comic book. Wrightson em sua melhor obra.
Mas não se aflija, pois quem se aflige é sucker: Ainda há tempo de ler Watchmen, Preacher, etc.
Na realidade te invejo: eu gostaria de experimentar a sensação de ler Watchmen de novo, sob a luz do ineditismo.
Da DC, realmente pouco se salva. Batman e a Liga da Justiça Internacional são exceções.
Esqueça a Image, aquilo é para adolescentes de 14 anos.
E a Dark Horse tem seus momentos.

 
At 3:00 PM, Anonymous Anônimo said...

Prezado Cabelo,
Comente: como uma pessoa que gosta de realidade é fanática por quadrinhos? hahaha

 

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